quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

UMA MATRIOSKA PARA VOCÊ!



                                                                                                     Por Nayara Ramos


“A criança que fui chora na estrada.
Deixei-a ali quando vim ser quem sou;
Mas hoje, vendo que o que sou é nada,
Quero ir buscar quem fui onde ficou.”
                            Fernando Pessoa


Há um tempo, estive em uma formação em que o facilitador afirmou por muitas vezes ao longo do evento que “Era necessário curar os adultos para que as crianças vivessem em paz!” aquela frase ecoou dentro de mim e me inquietou por muitos dias, por várias razões, entre elas o fato de acreditar que as crianças precisavam de um adulto para ensinar e controlar tudo e qualquer coisa...
Seguindo a linha de pensamento “Incomodou, Doeu? Leva pra casa que é teu!”, eu passei muitos dias sem conseguir esquecer aquelas palavras.
Em uma tarde qualquer, lendo algo de que eu não me lembro aquele pensamento voltou e reverberou, luziu dentro de mim como um insight, estava ali alguém (o palestrante) que conseguiu transformar em palavras uma inquietação que existia dentro de mim, mas que nunca havia tomado forma!
Foi assim que nasceu o desejo de estudar um pouco mais sobre os adultos e como eles, de fato, perturbam a paz das crianças!
E é com essa reflexão que vamos começar a nossa semana!
Mas, o que esse título tem a ver com tudo isso? A Matrioska é um brinquedo artesanal e tradicional da Rússia, também conhecida como “boneca russa”, é caracterizada por reunir uma série de bonecas de tamanhos variados que são colocadas uma dentro das outras (cá entre nós, são lindas!).
De acordo com a cultura russa, as matrioskas simbolizam a ideia de maternidadefertilidadeamor amizade. O fato de uma boneca sair de dentro de outra maior representa o ato do parto, quando a mãe dá à luz a sua filha e, consequentemente, a filha dá à luz a outra criança, e assim sucessivamente. 
Antes de saber sobre o significado matriarcal dessas lindas bonecas, eu sempre as vi como a simbologia de uma pessoa.
Pense comigo! Para se tornar esse adulto que você é hoje, existem muitos de você aí dentro... Se pudéssemos particionar o seu eu, provavelmente tiraríamos vários “eus” de dentro de você! Nesse caso, é perfeitamente aceitável que o seu eu bebê, eu criança, eu adolescente, eu mãe, eu pai... estejam presentes aí dentro da sua Matrioska atual! Mas neste momento, vamos falar do seu eu-criança! O que a maioria das pessoas chama de criança interior!
Todos os adultos, independentemente de ter tido uma infância feliz ou não, tem uma criança interior, e acreditem segundo o psicanalista suíço Carl Gustav Jung em seu ensaio “A psicologia do arquétipo da criança”, o seu eu-criança ainda precisa de carinho, atenção, compreensão, amparo e principalmente de validação de todos os sentimentos reprimidos.
Para Jung, o adulto desconectado da criança interior pode sentir-se profundamente dependente de outras pessoas e ter necessidade constante de aprovação. É aquele que tenta agradar a todos como forma de ser aceito e sente  um vazio nunca preenchido! Esse adulto busca que outros preencham um vazio enorme daquilo que ele não consegue dar a si mesmo. E por isso acaba se afastando dos reais sentimentos - a conexão externa, inclusive com os filhos!
Muitos pais projetam nos filhos as coisas que não conseguiram realizar, o que não conseguiram ser e não percebem que é um peso muito grande depositar a própria vida, a enorme carência de afeto em mãos tão pequeninas... Para Jung, a conexão real e relacionamentos saudáveis baseados em troca e em crescimento mútuo só pode acontecer quando há conexão interna entre o adulto que você é e a criança que você também é!
Recriamos quando adultos, o que vivenciamos nos primeiros anos de vida com os nossos pais, por exemplo, uma pessoa que sofreu humilhação dos pais, provavelmente fará o mesmo com os seus filhos, ainda que prometa não fazer igual!
Então os pais são os culpados? Não estamos aqui procurando culpados, mas sim a origem das dificuldades e sintomas do adulto. Devemos ficar atentos para a repetição de padrão, e só conseguimos romper padrões com a conscientização, que se obtém com o processo de autoconhecimento, autocuidado, empatia, perdão, compromisso com a não violência e bastante reflexão.
No livro “Onde estão as moedas”, Joan Garriga afirma que dentro de cada um de nós, por mais graves que sejam as feridas, os filhos seguem sendo leais a seus pais e inevitavelmente os tomam como modelos e os interiorizam. De algum modo, conectam com uma força que os faz ser como eles. Por isso, quando são capazes de amá-los, honrá-los, dignificá-los e respeitá-los, então podem fazer a mesma coisa consigo mesmos e ser livres. ... muito simples: o que reprovamos nos aprisiona, e só o que amamos nos liberta. (Esse livro é bem curtinho, tem menos de 40 páginas, vou encaminhá-lo para quem necessite de ter um olhar mais profundo sobre os próprios pais)
Jung percebeu que entrar em contato com a criança interior é uma maravilhosa fonte de energia e criatividade interna. É por isso que muitos pais relatam que filhos promovem essa transformação, porque estar em contato com o mundo interno infantil é regredir voluntariamente (isso acontece quando brincamos com os nossos filhos) e é uma maneira de acessar uma fonte de vitalidade, intuição e possibilidades!
Abaixo organizei em tópicos algumas reflexões que te ajudarão a entender melhor a sua criança interior e também a prestar atenção na criança do seu filho:

(A proposta é ler essa parte do texto duas vezes, uma vez você vai ler visualizando a sua própria história, a interação com os seus pais ou as pessoas que os representavam, Depois você lerá novamente, enquanto avalia o modo como, hoje, você conduz a vida do seu filho ou filha.)


1. Palavras podem ser pontes ou muros – Cada criança quando nasce tem a profunda capacidade de amar incondicionalmente, toda ela é feita de amor, bondade, curiosidade, entrega, coragem e espontaneidade.
Ela vivencia o amor em tudo e em todos, inclusive em si mesma... Ela tem uma autoestima inabalada e é naturalmente confiante, essa criança livre tem além de suas necessidades básicas a necessidade de fantasiar, brincar, aprender, ter limites definidos... É fácil perceber quando essa criança sai do amor e foge para a dor, foge para o medo, pois ela é transparente e ainda não aprendeu a arte de disfarçar os próprios sentimentos quando eles são reprimidos, todas as vezes que ela busca alguém em quem confiar e não encontra, todas as vezes que ela tem que chorar sozinha, pois os pais não suportam ouvir o seu choro, todas as vezes que ela é criticada quando comete um erro, todas as vezes que ela é machucada como se a sua dor não importasse... Quantas vezes a sua criança foi negligenciada, silenciada, ferida?
É exatamente assim que uma criança interior livre torna-se uma criança interior ferida, hoje sabemos que a criança interior ferida é a maior causa de infelicidade do mundo. E não precisa acontecer algo necessariamente trágico... Essas feridas aparecem nas falas sutis dos pais ao rotularem os seus filho: “Você não aprende nada mesmo”, “você não tem motivo pra chorar, engole o choro”, “você não vai conseguir”, “você não faz nada certo”, “você é tímido demais”, “você é um covarde”, “deixa de ser bobo”,
“fracote”, “você é enjoado demais”. Ao deixar que eles chorem sozinhos... Negligenciar as emoções das nossas crianças nunca foi uma boa opção! A diferença é que os nossos pais não sabiam, mas você agora sabe!

2. Crianças aprendem pelo exemplo, dê emoções saudáveis para que a sua criança compreenda os próprios sinais interiores, ensine a ela a nomear os próprios sentimentos, as emoções, ensine-a a compreender o que está sentindo e a melhor forma de externar isso para o mundo. De nada adianta pedir calma para a criança se você “ferve” por qualquer situação, ou pedir atenção, se você mesmo não dá atenção para ela! Ou mais absurdo ainda, pedir que ela não grite, se você só fala gritando... Aquela frase, atualmente muito usada “Faça o que eu falo e não o que eu faço”, só ensinam a sua criança a ser, no mínimo, hipócrita e dissimulada!

3. Quando o que me basta não está dentro de mim é um grande sinal de desconexão – Ajude a sua criança a se reconhecer no mundo, saber quem ela é, qual espaço ocupa, sentir-se bem consigo mesma, ser grata, ser positiva, compreender os próprios limites, ter resiliência, ter autodisciplina, encontrar a felicidade nas pequenas coisas. As crianças que não tem identidade dependem de algo que está fora para se sentirem bem: brinquedo, roupas, viagens... E mais tarde quando adultos associam a felicidade a coisas externas, dinheiro, carro, emprego, outro alguém, reconhecimento... uma busca constante... sem nunca sentir satisfação...

4. Reconheça comportamentos –  Há pessoas que vivem intensas tempestades emocionais, aparentemente parecem que são adultos bem resolvidos, mas basta uma centelha para que o desequilíbrio tome conta. Abaixo, você encontrará uma lista de comportamentos organizados por Jackeline Vilela, para avaliar se na sua vida há uma criança ferida. Se for o caso tente descobrir, em que momento isso aconteceu!

 “01. Perda de Identidade, do contato com os próprios sentimentos, carências e desejos guiados pelo sentimento de culpa ou de vergonha. Tendência a se afastar ou a sempre se envolver em problemas (extremos);

02. Comportamento agressivo, seja violência física ou emocional;

03. Carência Profunda, necessidade de ter alguém sempre por perto, sede insaciável de amor, atenção e afeto e, mesmo tendo, não se sente preenchido.

04. Desconfiança ou excesso de confiança, necessidade de estar no controle e ou ingenuidade, choro histérico, etc;

05. Repetição das violências do passado como autopunição, distúrbios físicos, acidentes frequentes, etc;

06. Atribuir a responsabilidade sempre a terceiros, o outro é sempre o responsável pelas situações e com isso não acredita que precisa mudar o próprio comportamento;

07. Distúrbios de intimidade, dificuldade em acreditar, confiar ou desenvolver relacionamentos íntimos (de amor ou até amizade);

08. Comportamentos indisciplinados, agir por impulso ou rigidez, obsessão, necessidade constante de “agradar” os outros (mas, no fundo, espera algo em troca); sentimento de culpa e vergonha, dificuldade para dar uma boa risada, dançar ou cantar;

09. Comportamentos viciados ou compulsivos, como o álcool, drogas, alimentos, trabalho, compras, jogo, sexo, etc. Sentimentos latentes e recorrentes, como a raiva, medo, lamentação, tristeza, alegria, falsa felicidade;

10. Pensamentos distorcidos, como perfeccionismo, egocentrismo, falta de lógica, pessimismo (medo de desgraças imaginárias);

11. Sensação de vazio, com a sensação de viver uma farsa (viver representando), apatia, depressão, falta de contato consigo próprio, vida desinteressante e sem sentido - o interesse pela vida é mínimo porque acredita que ela é um problema a ser resolvido e não uma aventura a ser vivida.” 
 

5. Acolha, aceite e cuide!
Reconhecer a criança interior pode ser muito doloroso, especialmente se você reconhecer no seu filho ou filha algum desses comportamentos, no entanto é muito importante que você acolha essa dor, infelizmente a dor precisa ser sentida e ela não para de doer se for reprimida. Se precisar chorar, chore! Se precisar pensar sobre isso por muitos dias, pense! Só não desista... Nesse contato você poderá descobrir muitas coisas sobre você, inclusive que não é verdade o que fizeram você acreditar sobre si mesma (o). Em alguns casos mais graves, você precisará perdoar e seguir em frente (e nesses casos o melhor é procurar uma terapia).

6. O reencontro com a criança interior é libertador!

Pode curar doenças, fechar feridas emocionais, oferecer coragem, entusiasmo. Em uma vivência que fui, o facilitador pediu a nós que nos imaginássemos como a criança que fomos ou que olhássemos uma fotografia nossa dessa fase da vida. Enquanto nos conectávamos com a nossa imagem da infância, ele pediu para que víssemos uma cena (como em um filme) em que o nosso EU-adulto encontrasse e acolhesse o nosso Eu-criança, tínhamos que nos enxergar fazendo isso em algum lugar conhecido da nossa infância, um lugar que fizesse sentido para a nossa criança interior, então tínhamos que pegar essa criança no colo, abraçá-la e ofertar palavras de encorajamento, aproveitar o momento e falar para ela o que éramos e o que não éramos, mas que mesmo assim nos fizeram acreditar; também deveríamos perguntar a ela se estava precisando de ajuda e o que poderíamos fazer para que ela se sentisse melhor; ao final deveríamos dizer que a partir daquele momento cuidaríamos dela, então nos despedimos prometendo que a ajudaríamos sempre que ela precisasse, que não a deixaríamos sozinha, que não a julgaríamos mal e que voltaríamos com frequência! O exercício foi feito com muita gente, em um ambiente muito acolhedor... Tenho certeza que todos saíram dali como eu, flutuando! Você pode fazer um exercício semelhante em um momento de silêncio... ou pode escrever para sua criança interior, sempre que sentir vontade e depois ler como se tivesse acabado de receber uma carta! Ou gravar um áudio e depois ouvir com um fone de ouvido... Escreva ou fale tudo o que sentir vontade... O efeito é o mesmo...

7. Preserve a criança que nasceu nos seus filhos e filhas!

O melhor presente que podemos dar para os nossos filhos é a educação emocional. Somos humanos e não podemos controlar o meio ou as pessoas com quem vivemos, mas podemos educar o que sentimos diante das dificuldades que a vida nos apresenta...
Cuidar da sua criança interior é um processo de autoconhecimento, leva tempo e é doloroso, aprender a cuidar das suas próprias emoções será para o seu filho(a) um enorme presente, pois assim ele aprenderá com você a fazer o mesmo!
Em casa, você tem um pequeno mestre! Olhe para ele livre da máscara de quem sabe tudo e aprenda com a sua criança a viver em paz e amor!


Para os russos, presentear alguém com uma matrioska é um sinal de grande afeto e desejo de vida longa e feliz. Então toma, essa Matrioska é para você... sejam bem vindxs!

segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

Disciplina Positiva - O que é?




       
Para a Disciplina Positiva seja em casa ou na escola o mais importante é que nenhuma criança seja desencorajada! Todas as crianças devem olhar com alegria e esperança para o futuro. Em disciplina positiva encorajamos as nossas crianças a se concentrar na solução de problemas. Nós os adultos, em vez de impor consequências, tentamos os encorajar a pensar sobre as consequências do seu comportamento e em como os comportamentos podem afetá-los e também aos outros!
        A Disciplina Positiva foca em habilidades de vida tais como:

  • autoestima saudável
  • responsabilidade
  • autodisciplina
  • gentileza
  • cooperação
  • empatia
  • resiliência
  • honestidade
  • aprendizado ao longo da vida, consciências social, entre outras características de habilidades de vida.
        Pais e professores comprometidos também desejam essas habilidades desenvolvidas em suas crianças! Para isso focamos em perguntas para desenvolver, ensinar e encorajar os nossos pequenos, cientificamente temos provas de que perguntas são muito mais eficazes do que ordens, entendemos que "mandar" gera resistência fisiológica no corpo, enquanto perguntar respeitosamente cria um relaxamento no corpo:

                   Quando você dá uma ordem o cérebro entende "resista"!
                   Quando você pergunta o cérebro entende "busque uma resposta!"


      Anos de pesquisa em universidades de renome têm mostrado que as punições e recompensas não são eficazes para as mudanças de comportamento a longo prazo, mesmo assim vemos muitas famílias e escolas que baseiam o seu processo educacional e disciplinar nesses "métodos". Crianças que são frequentemente punidas e/ou recompensadas em longo prazo podem se sentir desencorajadas, pois aprenderão a depender das recompensas para se sentirem motivadas e não desenvolverão a satisfação interna - muito importante para se viver em sociedade. É a satisfação interna que leva o indivíduo a fazer o certo mesmo quando não tem ninguém olhando!

       De acordo com Jane Nelsen as punições a longo prazo podem resultar em:


  • Rebeldia: "eles não podem me forçar. Eu vou fazer o que eu quero."
  • Retaliação: "eu vou me vingar e ferir de volta, mesmo se prejudicar meu futuro."
  • Recuo :  a) Baixa auto estima: "Eu devo ser uma pessoa má.
                        b) Dissimulação: "Eu não vou ser pego da próxima vez."


       Esses comportamentos são resultados de longo prazo de punição, muitos pais e professores pensam que esse sistema "funciona" porque trazem resultados em curto prazo. Não estou aqui dizendo que as crianças devem se safar quando se comportam de maneira inaceitável, em Disciplina Positiva focamos em ferramentas não punitivas e sem recompensas para ensinar nossas crianças. "Se quisermos que os nossos filhos cresçam aprendendo a ser gentis, firmes e respeitosos, temos de garantir que essa é a maneira que eles vivem." As crianças aprendem o que vivenciam... E você o que está ensinando para a sua criança?









sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

É só pedir! Pedidos que enriquecem a vida...

Por que as mulheres estão sempre cansadas? Algumas considerações ...
 É comum ouvir os homens reclamarem de suas companheiras afirmando coisas do tipo:

"Você está sempre cansada!", "Parece que antes a gente saía mais", "Você já quer ir dormir?", "Por que você não pediu?", "Você nunca relaxa!", " Ô mulherzinha estressada...", "Você é muito mandona", "Eu preciso da minha caixinha do nada!" Além disso as definem como controladoras e estressadas!

"Era só pedir" - é o nome dado pela quadrinista francesa Emma aos quadrinhos em que ela explica, com maestria, o que vem a ser CARGA MENTAL! As tirinhas originalmente publicadas em francês, foram traduzidas para a nossa língua pela equipe do "Bandeira Negra" ( uma das estatísticas apresentadas foi adaptada para representar a realidade brasileira, a partir de pesquisas realizadas pelo IBGE)
Os quadrinhos deixam bem claro o quanto essa carga é pesada para quem a carrega sozinho!...

Aproveitei o contexto dos quadrinhos para falar um pouco sobre a importância dos PEDIDOS em Comunicação Não Violenta.
Aproveite a leitura...





































Para as mulheres é muito difícil ter que pedir ao outro para fazer coisas que precisam ser feitas todos os dias porque elas foram ensinadas a considerar o cuidado com os outros como a sua maior prioridade, de acordo com Rosemberg “Durante séculos, a imagem da mulher amorosa tem sido associada ao sacrifício e à negação de suas próprias necessidades" essa negação foi ainda mais reforçada a partir do momento em que elas foram rotuladas como " as fortes",  então expressar a própria vulnerabilidade  é ainda mais desconfortável. 
E mesmo que ela precise, em algum momento, fazer um pedido ao companheiro, é provável que o faça como se estivesse se desculpando. É assim por exemplo, quando a esposa pede ao marido que lave a louça, "mas não precisa secá-las e guardá-las, quando eu chegar do médico, eu guardo" ou àquela que por algum motivo precisa deixar o bebê aos cuidados do pai por algumas horas, mas prepara a fralda, o leite, a mamadeira, a pomada, a medicação... junto a uma lista que se assemelha bastante a um folheto explicativo!
É muito comum que as mulheres carreguem "todo o peso do mundo nas costas", pelo menos é assim que elas se sentem, a carga mental é pesada e pensar em todas as tarefas sozinha é mais pesado ainda... e que vez ou outra, digam isso aos parceiros, que as olham como se estivem de frente a um E.T.! De fato eles também estão pensando "Do que ela está falando? Eu também faço muitas coisas", é possível que o seu parceiro não saiba a CARGA MENTAL que você carrega, e que não veja "tudo" o que você faz e que ainda precisa fazer, porque essa carga é invisível, é ela quem pensa na lista do supermercado antes de escrevê-la, que pensa no melhor dia para ir às compras e que faz às compras já pensando no cardápio da semana, por exemplo.
Em minhas andanças por aí, tenho visto homens cheios de si falando..." Mas eu ajudo em casa, não é amor!?", fazendo alusão a uma louça que é lavada de vez em quando, uma roupa suja que é posta na máquina de lavar a pedido da própria mulher (que ele põe de cara feia) ou ao fato de terem feito o almoço ou o jantar alguma vez na vida. "Como se essa fosse a divisão mais justa dos afazeres domésticos" pensarão elas, mas irão concordar... "Ajuda sim!", quando na verdade, ele não tem que "ajudar", afinal ele mora naquela casa também! 
Também tenho visto homens ressentidos com suas esposas, reclamando de falta de atenção, da rispidez com que são tratados "sem nenhum motivo aparente" e do desânimo que elas demonstram para viajar ou fazer pequenos passeios... Do outro lado, vejo mulheres cansadas do passeio para relaxar, por apenas pensar em como terão que arrumar as próprias coisas, as coisas das crianças, do companheiro e em como terão que correr atrás dos filhos, enquanto pensam em todos os afazeres que ficaram por fazer em casa e no trabalho e em tudo que precisarão fazer no seguinte, e no outro, e no outro, e no outro...
Em Comunicação Não Violenta acreditamos que  todas as necessidades que não são atendidas têm um preço muito alto, e não raro vejo mulheres cheias de rancor, tristeza, frustração, mágoa, ressentimento... 
Muitas vezes elas mesmas não entendem de onde está vindo tudo isso! É possível que nem saibam o que de fato as está incomodando e que sequer tenham consciência das suas necessidades por trás de todos os sentimentos ruins que sentem.
E mesmo àquelas mulheres que têm alguma consciência do que estão sentindo, quando decidem falar sobre o assunto, o fazem com uma carga emocional tão grande que muitas vezes, em vez de conseguir falar o que a perturba verdadeiramente, pode começar a fazer avaliações, interpretações e imagens, ou seja, todos os julgamentos que faz do comportamento da outra pessoa.  Por exemplo:

"Você é um preguiçoso, não vê que eu estou cansada" em vez de "Ontem você disse que ia lavar as louças e por o lixo para fora e não fez."


"Você só pensa em si mesmo" em vez de "Eu estou com muito sono, o bebê esteve com cólicas durante toda a noite, gostaria que você ficasse com ele agora, para que eu pudesse dormir um pouco."

Quando ela expressa a sua necessidade indiretamente, usando avaliações, julgamentos e etc... o outro ouve a crítica, se ressente e se torna resistente ao pedido feito, de modo que a desconexão e a insatisfação de ambos os lados aumenta! Ela, mais uma vez, sente que as suas necessidades não importam e começa novamente o movimento de negar que precise de alguma coisa "porque toda vez que eu falo, dá confusão... Então é melhor ficar calada..."

Valorizar as próprias necessidades é o primeiro passo para que outras pessoas valorizem também! Estar ciente da própria necessidade é o primeiro passo para compreender os próprios sentimentos e também para fazer o pedido que pode enriquecer a própria vida. A maioria de nós nunca foi ensinado a pensar a partir de uma linguagem de necessidade:
O que eu preciso?
O que está acontecendo neste momento que me faz sentir assim?
Qual é a necessidade não atendida que está por trás desse sentimento?

As pessoas em geral, e aqui estou falando de homens e mulheres, são acostumados a pensar no que há de errado com o outro, todas às vezes que as próprias necessidades não são satisfeitas .. É por isso, que provavelmente, tem muitas mulheres, esperando que o companheiro descubra "sozinho" o que a está chateando e que mesmo que ele pergunte "O que você tem?" ela responderá "nada"! 

Perceba que dar dicas, fazer rodeios, jogar piadas, mostrar expressões faciais de desagrado, NÃO é dizer com CLAREZA o que você quer e precisa!


Em Comunicação Não Violenta acreditamos que os pedidos feitos a partir da linguagem de necessidades podem enriquecer a vida e também acreditamos que o que os outros dizem e fazem pode ser o gatilho para um sentimento negativo, mas nunca é a causa do sentimento. A intenção desse post não é fazer você sentir raiva de si mesma ou de outra pessoa, a real intenção aqui é que você perceba como é importante fazer pedidos claros, livres de julgamento, tendo plena consciência da sua real necessidade! Não estou aqui falando de pedidos simples, que precisam ser feitos todos os dias, estou falando de pedidos que poderão enriquecer a sua vida e que, na melhor das hipóteses, nem precisarão ser feitos novamente! Antes de EXPLODIR ou IMPLODIR, ligue seu sentimento à sua necessidade... 

"Sinto-me assim porque eu..."

Vou parando por aqui... Para que o texto não fique cansativo! Se essa leitura foi interessante para você deixe um comentário e fique conosco... Vamos ampliar a nossa linguagem de sentimentos e necessidades!

Beijos de Luz... (abaixo preparei uma listinha de necessidades que podem não estar sendo atendidas)

 E aí, você sabe do que precisa? 

Liberdade

Presença
Bem-estar
Justiça
Importância
Consideração
Compreensão
Reconhecimento
Lazer
Conforto
Sossego
Contribuição
Cooperação
Reciprocidade
Segurança
Cuidado
Afeto
Amor










segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

Passo I - Observação

Não é necessário que as duas pessoas que conversam e ou discutem conheçam a CNV para que consigam estabelecer uma linha de comunicação compassiva e assertiva, se apenas uma das pessoas conhecer e dominar verdadeiramente a consciência, o  que existe por traz do conceito de CNV é possível que haja de fato uma comunicação empática, mesmo quando um dos interlocutores "está chamando pra briga"!
 Marshal Rosemberg o psicólogo que sistematizou a Comunicação Não Violenta, acreditava que todos os seres humanos são compassivos por natureza e que o fato de nos desviarmos da nossa verdadeira natureza já é por si, um grande gerador de conflitos, quer sejam eles internos ou externos. (em outro post falaremos sobre isso)
O que faz a CNV ter sucesso naquilo que se propõe está no fato de que todos os seres humanos possuem necessidades em comum e a CNV é uma linguagem que visa trazer estratégias para suprir a necessidade das pessoas.  Em outro post trataremos apenas das necessidades humanas, por hora vamos nos ater ao primeiro passo para se estabelecer uma Comunicação Não Violenta.

OBSERVAÇÃO SEM JULGAMENTO

A observação sem julgamento e sem preconceito é o primeiro passo para se iniciar um diálogo, interno ou externo, isso porque 90% dos nossos sofrimentos -frustração, raiva, tristeza, mágoa... acontecem por causa das nossas interpretações e não pelo que de fato aconteceu! 

 "Primeiramente observamos o que está de fato acontecendo numa situação: o que estamos vendo os outros dizerem ou fazerem que é enriquecedor ou não para nossa vida? O truque é ser capaz de articular essa observação sem fazer nenhum julgamento ou avaliação "(Marshal Rosemberg, p.25) 

Embora pareça difícil, você pode fazer isso facilmente se conseguir visualizar aquela situação que te afetou como se os seus olhos fossem uma câmera de vídeo! Um exercício muito eficaz é anotar em uma folha de papel, primeiro anote tudo o que você sentiu e pensou de determinada situação e depois, no verso da folha, anote de novo apenas o que os seus "olhos de câmera" registraram! Faça o exercício, é libertador... e depois se quiser, me conte, pode enviar para o meu e-mail ou deixar aqui nos comentários... beijinhos de luz da Nayara... 

sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

Comunicação Não Violenta


Comunicação Não- Violenta


       Criada pelo psicólogo norte-americano Marshall Rosenberg e ensinada há mais de 40 anos por uma rede mundial de mediadores, facilitadores e agentes voluntários, a CNV vem sendo utilizada por pessoas que desejam intervir e agir com meios práticos e eficazes a favor da paz. A CNV é uma linguagem de vida, uma linguagem compassiva e empática, uma linguagem que me ajuda a entender a minha necessidade e a necessidade do outro e mesmo em situações conflitantes é possível que todos se sintam satisfeitos! Utopia? Não. É o milagre da CNV! Uma linguagem de vida, capaz de mudar vidas. 

                                          Eu não sou violento!  

Algumas pessoas que me ouvem falar de Comunicação Não Violenta, rapidamente se defendem "Mas, eu não sou violento!", isso porque em geral, quando se fala ou se pensa em violência, é inevitável a associação com atos de agressão física. No entanto a CNV trata da violência invisível, aquela que Marshal Rosemberg dizia (e eu concordo muito com ele) que é a maior violência que existe. Ela está presente na maioria das vezes, de modo imperceptível, disfarçada, no ambiente de trabalho, em casa, na sala de aula... Este tipo de violência expõe às pessoas a situações ofensivas, humilhantes... De acordo com Leymann desenvolve-se em uma situação hostil em que um ou mais indivíduos coagem um terceiro indivíduo de tal forma que ele é levado a uma posição de fraqueza psicológica. Causam dor, tristeza, baixo desempenho e costuma gerar patologias na medida em que a "vítima" acredita ser exatamente o que seus agressores dizem que ela é. Nas empresas podem vir de gestores autoritários que abusam de seu poder e das situações de fragilidade de seus funcionários. Em casa pode ser entre pais e filhos, cônjuges. Na sala de aula, pode acontecer entre os colegas, entre professores e alunos...
Mentira, impaciência, culpa, manipulação, exclusão configuram alguns tipos de violência invisível. A CNV é uma conversa interna e também externa, entre outras coisas trata da intenção, da sua intenção ao entrar em uma conversa. No meu workshop "Diálogos Conscientes" costumo fazer essa pergunta "Você entra em uma conversa para ouvir ou para mudar o outro?" A sua resposta, acredite, faz toda a diferença!


                       Para que serve Comunicação Não Violenta?

De forma geral, para superar e ultrapassar conflitos imobilizadores e/ ou violentos, muitas pessoas usam a CNV para mediar conflitos, mas os grupos com quem trabalho usam CNV para se comunicar de maneira eficaz e positiva no trabalho, em casa, com os filhos, com o cônjuge, com os alunos... Principalmente quando a conversa tem alguma "carga emocional". 
CNV envolve autoconhecimento e muita consciência dos seus desejos mais íntimos! A maior dificuldade reside no fato de que não nos permitimos nos conhecer profundamente e nem sempre reconhecemos as nossa próprias necessidades o que torna mais difícil reconhecer a necessidade do outro e por isso a Comunicação Não Violenta deve ser vivenciada dia após dia, para que obtenhamos a prática de usá-la.
A CNV foca nos pontos comuns entre as pessoas, valorizando e celebrando as diferenças e assim destruindo o mal-estar que costuma permear alguns relacionamentos.

                                                   Quem usa?

Pessoas que desejam melhorar suas relações interpessoais, mediadores de conflitos, psicoterapeutas, famílias, educadores, ONGs, comunidades, instituições, organizações de todos os setores, empresas, líderes e também é bastante utilizada no âmbito político e em conflitos internacionais.
Aqueles que se apoiam na Comunicação Não Violenta (chamada também de Comunicação Empática) consideram que todas as ações estão originadas numa tentativa de satisfazer necessidades humanas, mas tentam fazê-lo evitando o uso do medo, da vergonha, da acusação, da ideia de falha, da coerção ou das ameaças. 
O ideal da CNV é conseguir que nossas necessidades, desejos, anseios e esperanças não sejam satisfeitos às custas de outra pessoa. Ela é capaz de criar relações pacíficas entre as pessoas e é Muito útil para promover conexão consigo mesmo e com o outro.
No entanto, CNV não é um conjunto de técnicas que você vai aprender e vai sair usando mecanicamente e por isso terá sucesso! Não. CNV é muito mais que isso, sequer é um modo de vida. CNV é uma escolha! Todos os dias você acorda e valentemente decide, escolhe viver CNV! 

Nayara Ramos
Instagram: alemdaconversa