segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

Disciplina Positiva - O que é?




       
Para a Disciplina Positiva seja em casa ou na escola o mais importante é que nenhuma criança seja desencorajada! Todas as crianças devem olhar com alegria e esperança para o futuro. Em disciplina positiva encorajamos as nossas crianças a se concentrar na solução de problemas. Nós os adultos, em vez de impor consequências, tentamos os encorajar a pensar sobre as consequências do seu comportamento e em como os comportamentos podem afetá-los e também aos outros!
        A Disciplina Positiva foca em habilidades de vida tais como:

  • autoestima saudável
  • responsabilidade
  • autodisciplina
  • gentileza
  • cooperação
  • empatia
  • resiliência
  • honestidade
  • aprendizado ao longo da vida, consciências social, entre outras características de habilidades de vida.
        Pais e professores comprometidos também desejam essas habilidades desenvolvidas em suas crianças! Para isso focamos em perguntas para desenvolver, ensinar e encorajar os nossos pequenos, cientificamente temos provas de que perguntas são muito mais eficazes do que ordens, entendemos que "mandar" gera resistência fisiológica no corpo, enquanto perguntar respeitosamente cria um relaxamento no corpo:

                   Quando você dá uma ordem o cérebro entende "resista"!
                   Quando você pergunta o cérebro entende "busque uma resposta!"


      Anos de pesquisa em universidades de renome têm mostrado que as punições e recompensas não são eficazes para as mudanças de comportamento a longo prazo, mesmo assim vemos muitas famílias e escolas que baseiam o seu processo educacional e disciplinar nesses "métodos". Crianças que são frequentemente punidas e/ou recompensadas em longo prazo podem se sentir desencorajadas, pois aprenderão a depender das recompensas para se sentirem motivadas e não desenvolverão a satisfação interna - muito importante para se viver em sociedade. É a satisfação interna que leva o indivíduo a fazer o certo mesmo quando não tem ninguém olhando!

       De acordo com Jane Nelsen as punições a longo prazo podem resultar em:


  • Rebeldia: "eles não podem me forçar. Eu vou fazer o que eu quero."
  • Retaliação: "eu vou me vingar e ferir de volta, mesmo se prejudicar meu futuro."
  • Recuo :  a) Baixa auto estima: "Eu devo ser uma pessoa má.
                        b) Dissimulação: "Eu não vou ser pego da próxima vez."


       Esses comportamentos são resultados de longo prazo de punição, muitos pais e professores pensam que esse sistema "funciona" porque trazem resultados em curto prazo. Não estou aqui dizendo que as crianças devem se safar quando se comportam de maneira inaceitável, em Disciplina Positiva focamos em ferramentas não punitivas e sem recompensas para ensinar nossas crianças. "Se quisermos que os nossos filhos cresçam aprendendo a ser gentis, firmes e respeitosos, temos de garantir que essa é a maneira que eles vivem." As crianças aprendem o que vivenciam... E você o que está ensinando para a sua criança?









sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

É só pedir! Pedidos que enriquecem a vida...

Por que as mulheres estão sempre cansadas? Algumas considerações ...
 É comum ouvir os homens reclamarem de suas companheiras afirmando coisas do tipo:

"Você está sempre cansada!", "Parece que antes a gente saía mais", "Você já quer ir dormir?", "Por que você não pediu?", "Você nunca relaxa!", " Ô mulherzinha estressada...", "Você é muito mandona", "Eu preciso da minha caixinha do nada!" Além disso as definem como controladoras e estressadas!

"Era só pedir" - é o nome dado pela quadrinista francesa Emma aos quadrinhos em que ela explica, com maestria, o que vem a ser CARGA MENTAL! As tirinhas originalmente publicadas em francês, foram traduzidas para a nossa língua pela equipe do "Bandeira Negra" ( uma das estatísticas apresentadas foi adaptada para representar a realidade brasileira, a partir de pesquisas realizadas pelo IBGE)
Os quadrinhos deixam bem claro o quanto essa carga é pesada para quem a carrega sozinho!...

Aproveitei o contexto dos quadrinhos para falar um pouco sobre a importância dos PEDIDOS em Comunicação Não Violenta.
Aproveite a leitura...





































Para as mulheres é muito difícil ter que pedir ao outro para fazer coisas que precisam ser feitas todos os dias porque elas foram ensinadas a considerar o cuidado com os outros como a sua maior prioridade, de acordo com Rosemberg “Durante séculos, a imagem da mulher amorosa tem sido associada ao sacrifício e à negação de suas próprias necessidades" essa negação foi ainda mais reforçada a partir do momento em que elas foram rotuladas como " as fortes",  então expressar a própria vulnerabilidade  é ainda mais desconfortável. 
E mesmo que ela precise, em algum momento, fazer um pedido ao companheiro, é provável que o faça como se estivesse se desculpando. É assim por exemplo, quando a esposa pede ao marido que lave a louça, "mas não precisa secá-las e guardá-las, quando eu chegar do médico, eu guardo" ou àquela que por algum motivo precisa deixar o bebê aos cuidados do pai por algumas horas, mas prepara a fralda, o leite, a mamadeira, a pomada, a medicação... junto a uma lista que se assemelha bastante a um folheto explicativo!
É muito comum que as mulheres carreguem "todo o peso do mundo nas costas", pelo menos é assim que elas se sentem, a carga mental é pesada e pensar em todas as tarefas sozinha é mais pesado ainda... e que vez ou outra, digam isso aos parceiros, que as olham como se estivem de frente a um E.T.! De fato eles também estão pensando "Do que ela está falando? Eu também faço muitas coisas", é possível que o seu parceiro não saiba a CARGA MENTAL que você carrega, e que não veja "tudo" o que você faz e que ainda precisa fazer, porque essa carga é invisível, é ela quem pensa na lista do supermercado antes de escrevê-la, que pensa no melhor dia para ir às compras e que faz às compras já pensando no cardápio da semana, por exemplo.
Em minhas andanças por aí, tenho visto homens cheios de si falando..." Mas eu ajudo em casa, não é amor!?", fazendo alusão a uma louça que é lavada de vez em quando, uma roupa suja que é posta na máquina de lavar a pedido da própria mulher (que ele põe de cara feia) ou ao fato de terem feito o almoço ou o jantar alguma vez na vida. "Como se essa fosse a divisão mais justa dos afazeres domésticos" pensarão elas, mas irão concordar... "Ajuda sim!", quando na verdade, ele não tem que "ajudar", afinal ele mora naquela casa também! 
Também tenho visto homens ressentidos com suas esposas, reclamando de falta de atenção, da rispidez com que são tratados "sem nenhum motivo aparente" e do desânimo que elas demonstram para viajar ou fazer pequenos passeios... Do outro lado, vejo mulheres cansadas do passeio para relaxar, por apenas pensar em como terão que arrumar as próprias coisas, as coisas das crianças, do companheiro e em como terão que correr atrás dos filhos, enquanto pensam em todos os afazeres que ficaram por fazer em casa e no trabalho e em tudo que precisarão fazer no seguinte, e no outro, e no outro, e no outro...
Em Comunicação Não Violenta acreditamos que  todas as necessidades que não são atendidas têm um preço muito alto, e não raro vejo mulheres cheias de rancor, tristeza, frustração, mágoa, ressentimento... 
Muitas vezes elas mesmas não entendem de onde está vindo tudo isso! É possível que nem saibam o que de fato as está incomodando e que sequer tenham consciência das suas necessidades por trás de todos os sentimentos ruins que sentem.
E mesmo àquelas mulheres que têm alguma consciência do que estão sentindo, quando decidem falar sobre o assunto, o fazem com uma carga emocional tão grande que muitas vezes, em vez de conseguir falar o que a perturba verdadeiramente, pode começar a fazer avaliações, interpretações e imagens, ou seja, todos os julgamentos que faz do comportamento da outra pessoa.  Por exemplo:

"Você é um preguiçoso, não vê que eu estou cansada" em vez de "Ontem você disse que ia lavar as louças e por o lixo para fora e não fez."


"Você só pensa em si mesmo" em vez de "Eu estou com muito sono, o bebê esteve com cólicas durante toda a noite, gostaria que você ficasse com ele agora, para que eu pudesse dormir um pouco."

Quando ela expressa a sua necessidade indiretamente, usando avaliações, julgamentos e etc... o outro ouve a crítica, se ressente e se torna resistente ao pedido feito, de modo que a desconexão e a insatisfação de ambos os lados aumenta! Ela, mais uma vez, sente que as suas necessidades não importam e começa novamente o movimento de negar que precise de alguma coisa "porque toda vez que eu falo, dá confusão... Então é melhor ficar calada..."

Valorizar as próprias necessidades é o primeiro passo para que outras pessoas valorizem também! Estar ciente da própria necessidade é o primeiro passo para compreender os próprios sentimentos e também para fazer o pedido que pode enriquecer a própria vida. A maioria de nós nunca foi ensinado a pensar a partir de uma linguagem de necessidade:
O que eu preciso?
O que está acontecendo neste momento que me faz sentir assim?
Qual é a necessidade não atendida que está por trás desse sentimento?

As pessoas em geral, e aqui estou falando de homens e mulheres, são acostumados a pensar no que há de errado com o outro, todas às vezes que as próprias necessidades não são satisfeitas .. É por isso, que provavelmente, tem muitas mulheres, esperando que o companheiro descubra "sozinho" o que a está chateando e que mesmo que ele pergunte "O que você tem?" ela responderá "nada"! 

Perceba que dar dicas, fazer rodeios, jogar piadas, mostrar expressões faciais de desagrado, NÃO é dizer com CLAREZA o que você quer e precisa!


Em Comunicação Não Violenta acreditamos que os pedidos feitos a partir da linguagem de necessidades podem enriquecer a vida e também acreditamos que o que os outros dizem e fazem pode ser o gatilho para um sentimento negativo, mas nunca é a causa do sentimento. A intenção desse post não é fazer você sentir raiva de si mesma ou de outra pessoa, a real intenção aqui é que você perceba como é importante fazer pedidos claros, livres de julgamento, tendo plena consciência da sua real necessidade! Não estou aqui falando de pedidos simples, que precisam ser feitos todos os dias, estou falando de pedidos que poderão enriquecer a sua vida e que, na melhor das hipóteses, nem precisarão ser feitos novamente! Antes de EXPLODIR ou IMPLODIR, ligue seu sentimento à sua necessidade... 

"Sinto-me assim porque eu..."

Vou parando por aqui... Para que o texto não fique cansativo! Se essa leitura foi interessante para você deixe um comentário e fique conosco... Vamos ampliar a nossa linguagem de sentimentos e necessidades!

Beijos de Luz... (abaixo preparei uma listinha de necessidades que podem não estar sendo atendidas)

 E aí, você sabe do que precisa? 

Liberdade

Presença
Bem-estar
Justiça
Importância
Consideração
Compreensão
Reconhecimento
Lazer
Conforto
Sossego
Contribuição
Cooperação
Reciprocidade
Segurança
Cuidado
Afeto
Amor










segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

Passo I - Observação

Não é necessário que as duas pessoas que conversam e ou discutem conheçam a CNV para que consigam estabelecer uma linha de comunicação compassiva e assertiva, se apenas uma das pessoas conhecer e dominar verdadeiramente a consciência, o  que existe por traz do conceito de CNV é possível que haja de fato uma comunicação empática, mesmo quando um dos interlocutores "está chamando pra briga"!
 Marshal Rosemberg o psicólogo que sistematizou a Comunicação Não Violenta, acreditava que todos os seres humanos são compassivos por natureza e que o fato de nos desviarmos da nossa verdadeira natureza já é por si, um grande gerador de conflitos, quer sejam eles internos ou externos. (em outro post falaremos sobre isso)
O que faz a CNV ter sucesso naquilo que se propõe está no fato de que todos os seres humanos possuem necessidades em comum e a CNV é uma linguagem que visa trazer estratégias para suprir a necessidade das pessoas.  Em outro post trataremos apenas das necessidades humanas, por hora vamos nos ater ao primeiro passo para se estabelecer uma Comunicação Não Violenta.

OBSERVAÇÃO SEM JULGAMENTO

A observação sem julgamento e sem preconceito é o primeiro passo para se iniciar um diálogo, interno ou externo, isso porque 90% dos nossos sofrimentos -frustração, raiva, tristeza, mágoa... acontecem por causa das nossas interpretações e não pelo que de fato aconteceu! 

 "Primeiramente observamos o que está de fato acontecendo numa situação: o que estamos vendo os outros dizerem ou fazerem que é enriquecedor ou não para nossa vida? O truque é ser capaz de articular essa observação sem fazer nenhum julgamento ou avaliação "(Marshal Rosemberg, p.25) 

Embora pareça difícil, você pode fazer isso facilmente se conseguir visualizar aquela situação que te afetou como se os seus olhos fossem uma câmera de vídeo! Um exercício muito eficaz é anotar em uma folha de papel, primeiro anote tudo o que você sentiu e pensou de determinada situação e depois, no verso da folha, anote de novo apenas o que os seus "olhos de câmera" registraram! Faça o exercício, é libertador... e depois se quiser, me conte, pode enviar para o meu e-mail ou deixar aqui nos comentários... beijinhos de luz da Nayara... 

sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

Comunicação Não Violenta


Comunicação Não- Violenta


       Criada pelo psicólogo norte-americano Marshall Rosenberg e ensinada há mais de 40 anos por uma rede mundial de mediadores, facilitadores e agentes voluntários, a CNV vem sendo utilizada por pessoas que desejam intervir e agir com meios práticos e eficazes a favor da paz. A CNV é uma linguagem de vida, uma linguagem compassiva e empática, uma linguagem que me ajuda a entender a minha necessidade e a necessidade do outro e mesmo em situações conflitantes é possível que todos se sintam satisfeitos! Utopia? Não. É o milagre da CNV! Uma linguagem de vida, capaz de mudar vidas. 

                                          Eu não sou violento!  

Algumas pessoas que me ouvem falar de Comunicação Não Violenta, rapidamente se defendem "Mas, eu não sou violento!", isso porque em geral, quando se fala ou se pensa em violência, é inevitável a associação com atos de agressão física. No entanto a CNV trata da violência invisível, aquela que Marshal Rosemberg dizia (e eu concordo muito com ele) que é a maior violência que existe. Ela está presente na maioria das vezes, de modo imperceptível, disfarçada, no ambiente de trabalho, em casa, na sala de aula... Este tipo de violência expõe às pessoas a situações ofensivas, humilhantes... De acordo com Leymann desenvolve-se em uma situação hostil em que um ou mais indivíduos coagem um terceiro indivíduo de tal forma que ele é levado a uma posição de fraqueza psicológica. Causam dor, tristeza, baixo desempenho e costuma gerar patologias na medida em que a "vítima" acredita ser exatamente o que seus agressores dizem que ela é. Nas empresas podem vir de gestores autoritários que abusam de seu poder e das situações de fragilidade de seus funcionários. Em casa pode ser entre pais e filhos, cônjuges. Na sala de aula, pode acontecer entre os colegas, entre professores e alunos...
Mentira, impaciência, culpa, manipulação, exclusão configuram alguns tipos de violência invisível. A CNV é uma conversa interna e também externa, entre outras coisas trata da intenção, da sua intenção ao entrar em uma conversa. No meu workshop "Diálogos Conscientes" costumo fazer essa pergunta "Você entra em uma conversa para ouvir ou para mudar o outro?" A sua resposta, acredite, faz toda a diferença!


                       Para que serve Comunicação Não Violenta?

De forma geral, para superar e ultrapassar conflitos imobilizadores e/ ou violentos, muitas pessoas usam a CNV para mediar conflitos, mas os grupos com quem trabalho usam CNV para se comunicar de maneira eficaz e positiva no trabalho, em casa, com os filhos, com o cônjuge, com os alunos... Principalmente quando a conversa tem alguma "carga emocional". 
CNV envolve autoconhecimento e muita consciência dos seus desejos mais íntimos! A maior dificuldade reside no fato de que não nos permitimos nos conhecer profundamente e nem sempre reconhecemos as nossa próprias necessidades o que torna mais difícil reconhecer a necessidade do outro e por isso a Comunicação Não Violenta deve ser vivenciada dia após dia, para que obtenhamos a prática de usá-la.
A CNV foca nos pontos comuns entre as pessoas, valorizando e celebrando as diferenças e assim destruindo o mal-estar que costuma permear alguns relacionamentos.

                                                   Quem usa?

Pessoas que desejam melhorar suas relações interpessoais, mediadores de conflitos, psicoterapeutas, famílias, educadores, ONGs, comunidades, instituições, organizações de todos os setores, empresas, líderes e também é bastante utilizada no âmbito político e em conflitos internacionais.
Aqueles que se apoiam na Comunicação Não Violenta (chamada também de Comunicação Empática) consideram que todas as ações estão originadas numa tentativa de satisfazer necessidades humanas, mas tentam fazê-lo evitando o uso do medo, da vergonha, da acusação, da ideia de falha, da coerção ou das ameaças. 
O ideal da CNV é conseguir que nossas necessidades, desejos, anseios e esperanças não sejam satisfeitos às custas de outra pessoa. Ela é capaz de criar relações pacíficas entre as pessoas e é Muito útil para promover conexão consigo mesmo e com o outro.
No entanto, CNV não é um conjunto de técnicas que você vai aprender e vai sair usando mecanicamente e por isso terá sucesso! Não. CNV é muito mais que isso, sequer é um modo de vida. CNV é uma escolha! Todos os dias você acorda e valentemente decide, escolhe viver CNV! 

Nayara Ramos
Instagram: alemdaconversa

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Disciplina Positiva em sala de aula - Minha trajetória - Parte I



Por muitos anos, provavelmente, fruto da minha educação em casa e também na escola, acreditei que para aprender, deveria ouvir ou quando essa tática não dava certo eu mesma deveria estudar sozinha e aprender o que quer que fosse... Assim, estudei e aprendi muita coisa sozinha, provavelmente daí veio a paixão pelos livros, descobri bem cedo que eu poderia aprender coisas interessantes naquelas páginas maravilhosas! Mesmo quando eu decidia não prestar muita atenção "àquela aula", eu sabia que em algum livro eu encontraria o que era preciso. Sonhei quando criança que seria professora... Dei aulas para o meu irmão, para os vizinhos e para os alunos que existiam somente na minha imaginação! Sempre amei dar aulas, sempre amei ensinar...
Como era de se esperar, fiz MAGISTÉRIO (naquela época ainda existia, ooops! Acabei de revelar minha idade... risos), o meu ensino médio foi em um Centro de Referência para a Formação do Magistério!  Lá, falávamos o tempo todo de "Escolanovismo", "Motivação", "Construtivismo"... Mas em aulas pouco motivadoras e em um modelo totalmente tradicional... Eu sabia bem qual era a definição de "Escola Nova", mas não conhecia a sua prática e também não tinha maturidade para florescer aquela ideia em práticas, na minha cabeça tão jovem!
Terminei o Magistério, com louvor - notas altas e uma excelente performance enquanto aluna! Uma de minhas professoras me indicou para o cargo de professora em uma escola de porte médio na cidade e assim comecei a minha carreira!
Eu estudava muito, me dedicava muito e falava pra caramba (este fato não mudou rs, rs), e assim como eu aprendia, passei a ensinar!
                    O pensamento era: se e tão somente se esses alunos me ouvirem, certamente aprenderão!
Então veio a realidade... As crianças não ouviam! rsrs... Há um certo exagero aqui, em alguns momentos ouviam sim! Mas a sensação que eu tinha era que a sala de aula era um campo de batalha e que todos os dias eu deveria chegar ali pronta para uma "guerra"! Para dizer coisas do tipo... "Isso vai cair na prova, prestem atenção", "Se não copiar no caderno, vai perder ponto", "Quem conversar não vai para o recreio", e gritar muito em meio ao caos "Gente, silêncio!" entre outras "promessas" que os professores costumam fazer aos seus alunos... Quem nunca fez uma promessa dessas como professor, certamente ouviu como aluno! O fato é que eu saía da sala de aula muito cansada... Mas eu era muito jovem, então todos os dias estava lá, com força renovada e também tentando novas estratégias... Foi assim o primeiro ano de magistério... Na verdade, os primeiros 6 meses... Não mencionei, mas eu entrei no lugar de uma professora que havia se demitido da escola porque um aluno de 9 anos, tinha a agredido! É claro que quando eu entrei naquela sala de aula, eu já entrei com muitas reservas e preconceitos e por isso, hoje eu entendo, adotei uma postura muito rígida, para que aqueles meninos de 9 anos entendessem que não podiam "brincar" comigo da maneira como haviam "brincado" com a prô anterior!
No "fim das contas" deu tudo certo, todos foram aprovados, fizeram boas provas... Eu fiquei com o emprego para o ano seguinte e assim comecei a minha trajetória...
No ano seguinte um livro me salvou, na verdade dois livros, um era sobre dinâmicas em sala de aula e o outro era sobre Pedagogia de Projetos! Me agarrei àquelas leituras e passei a fazer muitas "brincadeiras" e jogos em sala de aula, os livros didáticos muitas vezes traziam boas ideias que eu também executava e por isso acabava tendo uma sala de aula mais "alegrinha" que as demais! É claro que aquela "alegria" dos alunos confundiu a cabeça de algumas pessoas que passaram a dizer que eu não dava aula, que eu era uma professora que só brincava e contava histórias... em uma conversa com uma das diretoras da escola, ouvi que eu deveria ser mais rígida porque eu era uma professora muito "permissiva" e os pais não gostavam daquela conduta nos professores! A partir daquele "sábio" conselho, passei a moderar os jogos, e dinâmicas, e histórias...







Antigamente - Carlos Drummond de Andrade

ANTIGAMENTE
                                                                                                                     CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
I-
ANTIGAMENTE, as moças chamavam-se mademoiselles e eram todas mimosas e muito prendadas. Não faziam anos: completavam primaveras, em geral dezoito. Os janotas, mesmo não sendo rapagões, faziam-lhes pé-de-alferes, arrastando a asa, mas ficava longos meses debaixo do balaio. E se levavam tábua, o remédio era tirar o cavalo da chuva e ir pregar em outra freguesia. As pessoas, quando corriam, antigamente, era pra tirar o pai da forca, e não caíam de cavalo magro. Algumas jogavam verde para colher maduro, e sabiam com quantos paus se faz uma canoa. O que não empedia que, nesse entrementes, esse ou aquele embarcasse em canoa furada. Encontravam alguém que lhes passava manta e azulava, dando às de Vila-diogo. Os idosos, depois da janta, faziam o quilo, saindo para tomar a fresca; e também tomavam cautela de não apanhar sereno. Os mais jovens, esses iam ao animatógrafo, e mais tarde ao cinematógrafo, chupando balas de altéia. Ou sonhavam em andar de aeroplano; os quais, de pouco siso, se metiam em camisa de onze varas, e até em calças pardas; não admira que dessem com os burros n'água.
Havia os que tomavam chá em criança, e, ao visitarem família da maior consideração, sabiam cuspir dentro da escarradeira. Se mandavam seus respeitos a alguém, o portador garantia-lhes: "Farei presente." Outros, ao cruzarem com um sacerdote, tiravam o chapéu , exclamando: "Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo"; ao que o Reverendíssimo correspondia: "Para sempre seja louvado." E os eruditos, se alguém espirrava - sinal de defluxo -, eram impelidos a exortar: "Dominus Tecum." Embora sem saber da missa a metade, os presunçosos queriam ensinar padre-nosso ao vigário, e com isso punham a mão em cumbuca. Era natural que com eles se perdesse a tramontana. A pessoa cheia de melindres ficava sentida com a desfeita que l he faziam, quando, por exemplo, insinuavam que seu filho era artioso. Verdade seja que às vezes os meninos eram encapetados; chegavam a pitar escondido, atrás da igreja. As meninas, não : verdadeiros cromos, umas tetéias.
Antigamente, certos tipos faziam negócios e ficavam a ver navios; outros eram pegados com a boca na botija, contavam tudo tintim por tintim e iam comer o pão que o diabo amassou, lá onde judas perdeu as botas. Uns raros amarravam cachorro com lingüiça. E alguns ouviam cantar o galo, mas não sabiam onde. As famílias faziam sortimento na venda, tinham conta no carniceiro e arrematavam qualquer quitanda que passasse à porta, desde que o moleque do tabuleiro, quase sempre um "cabrito", não tivesse catinga. Acolhiam com satisfação a visita do cometa, que, andando por ceca e meca, trazia novidades de baixo, ou seja, da corte do Rio de Janeiro. Ele vinha dar dois dedos de prosa e deixar de presente ao dono da casa um canivete roscofe. As donzelas punham carmim e chegavam à sacada para vê-lo apear do macho faceiro. Infelizmente, alguns eram mais que velhacos: eram grandessíssimos tratantes.
Acontecia o indivíduo apanhar constipação; ficando perrengue, mandava o próprio chamar o doutor e, depois ir à botica para aviar a receita, de cápsulas ou pílulas fedorentas. Doença nefasta era phtysica, feia era o gálico. Antigamente, os sobrados tinham assombrações, os meninos lombrigas, asthmas os gatos, os homens portavam ceroulas, botinas e capa-de-goma, a casimira tinha de ser superior e mesmo X.P.T.O.London, não havia fotógrafos, mas retratistas, e os cristãos não morriam: descansavam. Mas tudo isso era antigamente, isto é, outrora.
                                                                                        II-
Antigamente, os pirralhos dobravam a língua diante dos pais, e se um se esquecia de arear os dentes antes de cair nos braços de Morfeu, era capaz de entrar no couro. Não devia também se esquecer de lavar os pés sem tugir nem mugir. Nada de bater na corcunda do padrinho, nem de debicar os mais velhos, pis levava tunda. Ainda cedinho, aguava as plantas, ia ao corte e logo voltava aos penates. Não ficava mangando na rua nem escapulia do mestre, mesmo que não entendesse patavina da instrução moral e cívica. O verdadeiro smart calçava botina de botões para comparecer todo liró ao copo d'água, se bem que no convescote apenas lambiscasse, para evitar flatos. Os bilontras é que eram um precipício, jogando com pau de dois bicos, pelo que carecia muita cautela e caldo de galinha. O melhor era pôr as barbas de molho diante de um treteiro de topete; depois de fintar e de engambelar os coiós, e antes que se pusesse tudo em pratos limpos, ele abria o arco. O diacho eram os filhos da Candinha: que somava a candongas acabava na rua da amargura, lá encontrando, encafifada, muita gente na embira, que não tinha nem para matar o bicho; por exemplo, o mão-de-defunto.
Bom era ter costas quentes, dar as cartas com a faca e o queijo na mão; melhor ainda, ter uma caixinha de pós de pirlimpimpim, pois isso evitava de levar a lata, ficar na pindaíba ou espichar a canela antes que Deus fosse servido. Qualquer um acabava enjerizado se lhe chegavam a urtiga no nariz, ou se o faziam de gato-sapato. Mas que regalo, receber de graça, no dia-de-reis, um capado! Ganhar vidro de cheiro marca Barbante, isso não: a mocinha dava o cavaco. Às vezes, sem tirte nem guarte, aparecia um doutor pomada, todo cheio de noive horas; ia-se ver, debaixo de tanta farafo era um doutor mula ruça, um pé rapado, que espiga! E a moçoila, que começava a nutrir xodó por ele, que estava mesmo de rabicho, caía das nuvens. Quem queria lá fazer papel pança? Daí se perder as estribeiras por uma tutaméi, um alcaide que o caixeiro nos impingia, dando de pinga um cascão de goiabada.

Em compensação, viver não era sangria desatada, e até o Chico vir de baixo vosmecê podia provar uma abrideira que era o suco, ficando na chuva mesmo com bom tempo. Não sendo pexote, e soltando arame, que vida supimpa a do Degas! Macacos me mordam se estou pregando peta. E os tipos que havia: o pau-para-toda-obra, o vira-casaca (este cuspia no prato em que comera), o testa-de-ferro, o sabe-com-quem-está-falando, o sangue-de-barata, o dr. Fiado que morreu ontem, o Zé-povinho, o biltre, o peralvilho, o salta-pocinhas, o alferes, a polaca, o passador de nota falsa, o mequetrefe, o safardana, o maria-vai-com-as-outras....Depois de mil peripécias, assim ou assado, todo mundo acabava mesmo batendo com o rabo na cerca, ou simplesmente a bota, sem saber como descalçá-la. Mas até aí morreu o Neves, e não foi no dia de São Nunca de tarde: foi vítima de pertinaz enfermidade que zombou de todos os recursos da ciência, e acreditam que a família nem sequer botou fumo no chapéu? 

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

O verbo no infinito - Vinícius de Moares









Ser criado, gerar-se, transformar
O amor em carne e a carne em amor; nascer
Respirar, e chorar, e adormecer
E se nutrir para poder chorar

Para poder nutrir-se; e despertar 
Um dia à luz e ver, ao mundo e ouvir
E começar a amar e então sorrir
E então sorrir para poder chorar.

E crescer, e saber, e ser, e haver
E perder, e sofrer, e ter horror
De ser e amar, e se sentir maldito

E esquecer de tudo ao vir um novo amor
E viver esse amor até morrer
E ir conjugar o verbo no infinito...

Vinícius de Moraes




Prometo estar com você, te dando coragem sempre que precisar, mesmo que nada dê certo no final. Fazendo-te ficar melhor quando se sentir sozinho. Contando os meus mais loucos segredos e planos. Até quando o meu coração não mais aguentar, e parar de bater.’
Up, Altas Aventuras