Resumo:
“O Breviário das Más Inclinações” de José Riço
Direitinho é uma narrativa envolvente, inspirada em escritos antigos do
livro “Vida e morte de José de Risso” de autor desconhecido, s/ data, edição
datilografada e policopiada (stêncil), e de distribuição gratuita durante as
romarias. No início de cada capítulo, existem escritos fac-similados desta
obra, que “resume” o que irá ser dito no capítulo.
José de Risso é o personagem central da trama
e é fruto de uma única noite de amor que sua mãe teve com um caixeiro viajante,
que vai embora e a deixa grávida. A mãe morre no momento em que ele nasce e
deixa José de Risso aos cuidados da avó.
José de Risso é um personagem misterioso e
intrigante, marcado por um sinal de desgraça no meio das costas, uma mancha
vermelha em forma de folha de carvalho, que lhe concede junto ao dom de cura
devido à habilidade que possui com as plantas medicinais uma fama de desgraçado
e abençoado.
Totalmente voltado para as más inclinações,
José de Risso tão depressa presta auxílio ao seu próximo, como o despedaça e
destrói sem piedade.
“O José de Risso era de muito más inclinações
e tinha muita propensão para os pensamentos com porcarias, era-lhe muito fácil
ter inclinações porcas quando via as mulheres a passarem na rua e a abanarem
muito as ancas”. (p. 163)
(A superstição ditava que a
marca da folha era um sinal de desgraça e que o seu portador atrairia
infelicidade e outros males a si e aos que de alguma forma consigo se
relacionassem. Aos doze anos a avó morre e ele fica sozinho no mundo. José de
Risso é maldoso, e vingativo, um exemplo disso é o capítulo que narra o
suicídio do professor que acusa José de Risso de ser o culpado, tudo acontece
porque um dia o professor recém chegado na cidade um dia chega em casa e pega a
esposa o traindo com a cigana, ele fica muito abalado e decide matar a cigana,
nesta mesma noite José de Risso começa a ter visões de adivinho e sonha com o
professor assassinando a Cigana, a partir daí passa a perseguir o professor até
fazê-lo matar-se, tudo isso porque nos primeiros dias de aula tinha levado onze
reguadas na mão, por desobedecer o professor.)
Personagens:
José de
Risso-
Personagem central
Caixeiro
viajante- Pai de José de Risso
Mãe
de José – Morre assim que ele nasce
Vó
de José- Morre quando José de Risso tem apenas 12 anos
Purísima de La Concepción- Espanhola, dona de
um cabaré e amante de
José de Risso
Benjamim Botelho (Professor)- Primeiro mestre de
José, enforca-se no pátio da escola.
Cigana- Amante da esposa do professor. Morre
assassinada por Benjamim.
Professora- Segunda professora de José, "gostava de
meninos" e teve uma caso com José quando ele tinha quase 9 anos.
Louca do Cortinhal- Ficou louca após a morte do noivo, a
família a trancava em um curral. Durante a noite José de Risso se passava por
seu noivo e ia visitá-la. (Morreu misteriosamente, esmagada por um touro, quando
engravidou, apenas José de Risso, sabia o que havia ocorrido, com certeza ele a
matou)
Espaço: A
história se passa basicamente em Vilarinho dos Loivos na região norte de
Portugal. As cenas, comumente descritas, na narrativa evocam paisagens bucólicas,
são tantos pormenores que é como se o leitor pudesse ver os riachos, a
desfolhada, os baús de roupas antigas, as pinhas, as montanhas e outros espaços
que o autor descreve tão bem.
·
Descrição da caminhada da avó de José de
Risso em uma noite de lua procurando ervas para desfazer a maldição que havia
sobre ele.
“Caminhava
apoiada num vara pau que lhe servia sempre para se defender das cobras e das
aves noturna. Teria ainda de sair da aldeia, pela estrada da mina de água,
passar pelo nicho da santa, perto da ponte e só depois de se meter a caminho
pelas courelas, por entre o breu e os cordões de videiras que ladeavam o milho
e as batatas” (p. 34)
(Na leitura, também temos a imagem dos casebres que parecem
ser amontoados e encimados pelas torres sineiras. E ao redor do vilarejo,
trilhamos velhos percursos que só os contrabandistas percorriam. Nas povoações
damos conta do seu dia-a-dia, dos costumes, das ruas vazias, das casas por
arranjar, dos campos verdes e paisagens.)
Tempo: O
narrador lida com o tempo quase que simultaneamente, numa circularidade onde presente,
passado e futuro coexistem e entrechocam-se. No tempo da narrativa predominam
as prolepses que antecipam o que ainda será dito, como um presságio e as
analepses que recapitulam o necessário para que o leitor não se perca na
história.
Prolepse:
·
Risso sonha com o assassinato da cigana por
seu professor Benjamim Botelho, no dia seguinte a cigana aparece morta. O
professor a tinha envenenado por saber do caso que ela tinha com sua esposa.
“No sonho a cigana tinha
umas enormes asas brancas e voava nua por cima da escola, rente ao telhado e à
árvore do pátio. O professor interrompia de vez em quando a lição e, debruçado
na janela com o ponteiro na mão tentava derrubá-la. Acertou-lhe uma das vezes,
e o corpo leve da cigana caiu sem barulho sobre o chão de terra.” (p. 47)
Analepse:
·
O autor retoma o fio da história, para
localizar o leitor na narrativa
“Isto aconteceu sete
dias depois de a Louca do Cortinhal (...) ter sido esmagada por um touro contra
a parede da corte.”(p.118)
ELEMENTOS
MÍSTICOS QUE RODEIAM A NARRATIVA DE JOSÉ DE RISSO
A Narrativa é um breviário (espécie de
manual), porque é quase uma súmula das crenças populares. Marcado por crenças,
superstições, simpatias, mezinhas, rezas e ladainhas.
(Só quem como José De
Risso, “sugou sofregamente, como se trouxesse uma fome de anos” o leite materno com toda a sabedoria ancestral
pode confirmar a veracidade dos rituais e das ladainhas que ele mesmo faz para
curar as pessoas que nem mesmo médicos ou bruxos dão jeito)
Profecias- É
a predição do futuro por alguém. O personagem mais marcante nesse elemento é o
pai de José de Risso.
“O teu destino está preso a
mim, também já o sabes (...). Ficamos ligados quando fechei esse cordão a
pensar em nós.”
(Essa cena ocorre
quando o caixeiro, que também faz serviços de ourives conserta um cordão que
sua avó lhe dera que se partiu misteriosamente no dia em que a avó morreu. É
importante lembrar que quando a moça usa o cordão novamente, ela sente a mesma
sensação que sentiu no dia da morte da avó. Há na cena a presença do presságio,
um sinal de que sua vida não vai ser tão longa. A fala do caixeiro é muito
significativa porque a partir dessa fala começam o desenrolar de cenas que leva
até o nascimento de Risso, que é realmente a prova da ligação que houve entre o
caixeiro e a mãe de Risso.)
Sonhos-
Muitas passagens falam da interpretação de sonhos como se estes fossem
verdadeiras antecipações do que se vai acontecer.
“Ao pensar no cordão, algo lhe trouxe o sonho a memória:
uma cobra que se agitava , saída de uma moita de espinheiros de flores
amarelas, emitindo silvos e um barulho de pequenos guisos, e que mordia
incessantemente a cauda. (...) De repente recomeçou a morder a cauda e
transformou-se num só anel de carne, onde não se distinguia nem cabeça nem
cauda.”(p.15)
(Este foi o único dia
em que ela não se lembrou do sonho que teve. Aqui praticamente toda a
simbologia do livro,. Haverá mesmo uma aliança entre ela e o caixeiro que será
o José de Risso, e que como em um círculo nasce com a chegada do caixeiro e
morre também com a chegada do caixeiro. Assim como o cordão que ele fecha e o
círculo em que a cobra se transforma há uma volta em toda a narrativa que
termina em sua vinda novamente a cidade. as flores amarelas podem significar
lágrimas, dor . Porque o amarelo é concebido como a cor da tristeza e a cobra foi
vista por nós como a figura da traição do caixeiro que a deixou grávida e
desapareceu. Inclusive José de Risso é depois morto pelo pai e por causa de
muitos escorpiões que existem em sua volta as pessoas são obrigadas a fazerem
um círculo de fogo ao seu redor para poderem tirar o corpo de um buraco, e
quando o círculo se apaga o pai vai embora da cidade.)
Mezinhas-
São receitas caseiras, feitas de acordo com as sabedorias populares ancestrais.
“lavava-se sempre numa infusão de folhas de arruda,
apanhadas ao luar, e bebia tisanas com sementes de funcho e de
sargacinha-dos-montes, para que as regras não lhe faltassem.”(p.9)
Superstições- A
narrativa é recheada de superstições e simpatias, principalmente no momento em
que ocorre o nascimento de José de Risso.
·
O bebê estava virado dentro da barriga
“Colocou então as mãos sobre
o ventre da rapariga, e sentiu logo que a criança não se tinha voltado dentro
da barriga. De maneira que era necessário subir ao telhado da igreja e voltar
uma telha, para que também assim a criança se voltasse e se pusesse na posição
certa de nascer.” (p.10)
·
Cuidados que a mãe tomou durante a gravidez
“Depois de saber que estava
grávida (...) deixou de usar o cordão de ouro ou outro qualquer fio, para o
bebê não nascer com o cordão umbilical enrolado a volta do pescoço, (...)
partiu em casa todos os copos rachados para que não bebesse por eles, e não
comeu carne de lebre durante todo o tempo da gravidez, pois a criança nasceria
com o lábio fendido, leporino, e dormiria de olhos abertos;(...) e evitou olhar
fixamente para o focinho de qualquer animal, o bebê poderia vir a ter feições
de bicho.”(p.12)
Presságios-
São os sinais ou fatos que prenunciam o futuro e que na obra quando não são
interpretados acarreta em uma série de fatos
“A velha sentira as primeiras dores no peito, pouco tempo
depois de o José de Risso ter ouvido uma coruja piar na asna do telhado do
Lagar Velho (...) Foi o estranho pressentimento disto e não ligar o pio do
pássaro a morte da avó, que fez com que só voltasse para casa no final do dia.”
Sina
ou Destino: Do pai, da mãe e da avó José de Risso herda uma grande
carga simbólica e sabedoria popular, por isso seu destino é marcado por muitas
crendices e superstições:
·
O
dia do nascimento: Nascera no dia de São Bartolomeu, dia em
que, segundo a crendice popular o diabo anda a solta.
“(...) Há coisas donde
ninguém escapa (...)ter nascido no dia de S. Bartolomeu é uma delas” (p.6)
·
O
batismo: José de Risso não foi batizado como deveria.
“(...) logo há coisas em que
se sabem logo, e essa foi uma delas, o padre entornou a concha de água benta
para o chão quando o batizava, já não havia remédio, isto já toda a gente sabia.
Não adiantava que fizesse piruetas para fugir a esta sina (...)”(p.6)
“José de Risso era mesmo amaldiçoado, tanto que nem
batizado foi, na leitura do livro percebemos esse toque diabólico que existe
nele, por exemplo. Ele está praticamente em todos os lugares quando acontecem
coisas ruins ou boas, e quase ao mesmo tempo, o que de ruim acontece é culpa
dele, o que de bom acontece também! Ele conhece todos os caminhos que leva a
todos os lugares na vila e mesmo quem lhe tenta fazer mal não consegue.”
·
O
pai: A vida de José de Risso parece estar determinada por duas
vindas do Caixeiro ao cenário da história. A primeira marcando o seu nascimento
e a segunda coincidindo com a sua vingança e morte. Inclusive o narrador conta
quase com as mesmas palavras a cena em que o pai vai embora da cidade, deixando
num primeiro momento a mãe de Risso marcada por uma “aliança” e num segundo
desfazendo essa
“aliança”.
·
Trecho que narra à partida do Caixeiro,
quando este deixa grávida a mãe de Risso.
“Ainda não sabia que alguém
o vira subir pelo carreiro das vinhas do monte, parar lá no alto com ambas as
malas, olhar para trás, e desaparecer de seguida por entre os castanheiros e os
carvalhos” (p.12)
·
Trecho que narra à partida do Caixeiro logo
após a morte de Risso.
“Quando o círculo se apagou,
um homem começou a subir devagar o carreiro das vinhas do monte. Parou lá no
alto com ambas as malas. Olhou para trás, e desapareceu de seguida por entre os
castanheiros e os carvalhos.” (p.157)
“Entre os dois aparecimentos do vendedor de ouro,
ambos na época da desfolhada ocorre os incidentes que o levam a autodestruição
porque tal como a mãe, não repara que o responsável por toda desgraça é a
presença destruidora configurada no pai, É como se a primeira vez ele tivesse
ido estabelecer a aliança e depois destruí-la.”
·
A
marca- O ciclo da vida do protagonista é marcado por uma
mancha em forma de Folha de Carvalho que este tem estampada nas costas. Cada
vez que José de Risso usava seus “poderes” ou passava por uma emoção muito
forte, a marca sangrava. No dia em que a folha cai o ciclo da vida de José
acaba.
·
Nasce com a mancha nas costas, um presságio
de infortúnios.
“(...) e com um sinal em forma de folha de
carvalho mesmo no meio das costas, é uma marca de desgraçado toda gente o sabe.
Quando passava já todos viam que ia para morto (...)” (p.6)
“Para muitos povos o
carvalho é uma árvore sagrada, que significa vida. O sangue, também simboliza a
vida, logo percebemos, que cada vez que a marca sangrava José perdia parte da
sua vida. Aqui também existe a presença da superstição que diz que a mancha foi
gerada pelo descuido da mãe, que só depois que ele nasceu reparou que tinha no
bolso do avental uma folha de carvalho durante toda a gravidez.”
·
No dia em que seu pai chega à cidade a folha
cai, logo mais José de Risso aparece morto da mesma maneira como costumava
matar escorpiões quando criança.
“Tirou
da água a marca em forma de folha de carvalho com que nascera; olhou-a sem
curiosidade e atirou-a para o meio dos brincos e anéis. (...) e correu na
direção do Cerro do Mocho. Esquecera-se de que tinha descido também a peia da
porta do quintal, deixando encerrado em casa, Lázaro, o cão.
Um
rapaz que levava o gado (...) encontrou José de Risso na manhã seguinte. Estava
entalado, com os braços ao longo do corpo, numa fenda das rochas. Tinha a cara
desfigurada pelas mordeduras venenosa das cobras e dos lacraus (eram tantos
que, para o poderem erguer do buraco em que caíra tiveram que acender um
círculo de fogo ao redor do corpo e esperar a morte dos escorpiões). ”(p.157)
“Quando o pai de José
de Risso chega a cidade, José manda o cão roubar-lhe o ouro e os relógios como
se fosse uma vingança, nesse mesmo dia a folha cai e José de Risso aparece morto, assim como ele
o pai é carregado de mistério. Morre com os escorpiões e como os escorpiões sem
perceber que está caminhando para a própria autodestruição, igual a mãe não
repara que o pai é a figura da desgraça, se vinga dele e recebe o troco.”

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